Eduardo Galeano parte desse mundo de nadies


A morte busca mais um artista da nossa época, o uruguaio Eduardo Galeano. O jornalista, escritor e historiador nasceu em Montevidéu em 1940 e morreu na mesma cidade, vítima de um câncer, nesta segunda-feira.

Seus escritos mesclavam ficção com um aguçado senso político e histórico. Era bastante ativo no campo da política e buscava sempre analisar a situação do povo latino, esperando por um governo inovador e por cidadãos sem medo da luta e da mudança.

Sem dúvida sua obra mais famosa é “As veias abertas da América Latina” (1971), em que destaca a exploração da América Latina desde o período colonial até a era da exploração capitalista viabilizada pelos Estados Unidos. Desde os primeiros parágrafos já podemos imaginar o cunho incisivo da sua análise:

 “Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta”.

“É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar têm sido sucessivamente determinados, de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo”.

Apesar de ser uma obra evidentemente “apaixonada”, no sentido de um desabafo da insatisfação relacionada à História dos latinos, muitas de suas análises nos fazem refletir sobre as nossas sempre presentes questões nacionalistas: de onde viemos e para aonde queremos ir. Claro que desde 1971, quando a obra foi escrita, muito coisa mudou no cenário econômico, o que o fez, inclusive, renegar essa obra, talvez porque a ponderação e a capacidade de análise mais profunda chega com a idade, assim como o entendimento de que, na contemporaneidade, nada pode ser analisado como pólos opostos. Entretanto, para além de uma análise financeira, histórica e social, o que mais nos toca nos escritos de Galeano é a capacidade de nos unir, como latinos, como irmãos que compartilham uma mesma história triste de nascimento.

 Da obra “O livro dos abraços”, composta de pequenos textos que geralmente não ultrapassam uma página, retiramos um dos mais famosos e comoventes textos que retrata o povo e sua luta diária em um mundo de nadies, o mesmo povo que precisa urgentemente se abraçar para que façamos um mundo onde caibamos todos. Abaixo, o vídeo com o texto na própria voz do autor.

Los nadies

Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de pobres, que algún mágico día llueva de pronto la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca, ni en lloviznita cae del cielo la buena suerte, por mucho que los nadies la llamen y aunque les pique la mano izquierda, o se levanten con el pié derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.
Los nadies: los hijos de los nadies, los dueños de nada.
Los nadies: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre, muriendo la vida, jodidos, rejodidos:
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no profesan religiones, sino supersticiones.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica roja de la prensa local.
Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.


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